sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Figura de parva.

Figura de parva. Hoje eu só fiz figura de parva. Olhá-lo fixamente é coisa que eu agora não costumo fazer, mas visto que ele apenas me olha de cima, umas vezes directamente e outras de canto, decidi arriscar. Ele olhou para mim enquanto andava, e quando deixei de ser do alcance da sua vista, recuou. Recuou e ficou parado a observar-me. Talvez estivesse à espera de um sorriso, de um revirar de olhos, de algum desprezo da minha parte... Não sei. Limitei-me a olhar para ele, sem nenhuma expressão na cara. Sem sentir nada, sem pensar em nada, sem lhe transmitir nada. Em resposta acabei por ver uma cara que não consegui decifrar. Um leve sorriso irónico, talvez. Ou então eu não era a única sem saber o que fazer. E ele acabou por seguir o seu caminho, deixando eu de o ver outra vez. Mais tarde sentei-me perto dele, sem nenhuma razão especial. Parecíamos autênticos desconhecidos, e eu também não estava à espera que fosse diferente. Ele pareceu-me feliz, o que de certa forma me deixa bem, porque era assim que o queria ver, mas por outro lado mal, por não ser o motivo da sua felicidade. Fui para a aula e no fim ele voltou a passar por mim. Como se fosse de admirar fingiu novamente que não me tinha visto, desviando o olhar para todas as direcções possíveis de modo a nunca me olhar nos olhos. Porquê? Também não sei. **

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